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A viagem de um grupo de juízes e servidores da Justiça do Trabalho ao interior do Acre, na primeira quinzena de novembro, para participar da inaugração das sedes próprias das Varas do Trabalho de Feijó e Epitaciolânida (AC) e das ações do projeto “Justiça do Trabalho Vai à Escola” no seringal Cachoeira, onde Chico Mendes e seus amigos iniciaram o movimento de resistência contra o desmatamento, se transformou numa verdadeira aventura diante das constantes áreas de turbulência no vôo até Tarauacá e do alto risco de atravessar os dois principais rios da região em época de “repique” em balsas rústicas de madeira.
Uma “odisséia”, de acordo com a juíza-presidente do Tribunal, Elana Cardoso Lopes Leiva de Faria, ao classificar as dificuldades que os servidores também enfrentaram para transportar, por exemplo, os móveis da nova sede da VT de Feijó em estradas com grandes atoleiros nessa época do ano.
A segunda fase da aventura, começou nos primeiros 50 minutos de vôo entre Rio Branco e Taruacá, em um avião bandeirante de fabricação antiga. Ainda no aeroporto de Taraucá, o calor intenso e durante o vôo a tensão e calafrio até o avião vencer as constantes áreas de turbulências.
Os 46km restantes de rodovia, do aeroporto de Tarauacá a Feijó, se constituíram em novo desafio, acentuado pelo risco de atravessar os rios Tarauacá e Envira, no período da cheia, em balsas rústicas de madeira empurradas por motor-rabeta que não oferecem o mínimo de segurança.
O risco aumenta, com a autorização do condutor da balsa para o embarque ao mesmo tempo de passageiros e dos veículos. Em dia de chuva, os veículos mal conseguem subir a rampa enlameada da outra margem do rio Taraucá. E foi num desses episódios que o diretor-geral Lélio Lopes, que dirigia uma camioneta traçada, quase caiu no rio na saída da embarcação Taraucá
No retorno, o receio de perder o horário do único vôo da empresa aérea que atende à Região, e que por pouco não obrigou a Seção de Cerimonial a refazer a agenda de trabalho das juízas Elana Cardoso Lopes Leiva de Faria (presidente) e Maria do Socorro Costa Miranda (coordenadora da Comissão de Pessoas do Gespública) em Rio Branco , onde foi assinado no dia seguinte um acrodo de cooperação para estágio de acadêmico de Direito com a Faculdade da Amazônia Ocidentral (Faao) e uma reunião com os juízes e servidores do Fórum Oswaldo Moura.
A expectativa de chegar logo ao aeroporto de Taraucá para a viagem de retorno aumentava a cada instante e ficou mais acentuada no trecho de volta de Feijó, quando a equipe foi informada , a 5km da cidade, que o condutor da balsa decidira ir fazer compras em Taraucá, cerca de 40km, e não havia substituto para atravessar os veículos e passageiros, exceto um carro de cada vez numa balsa de pouco calado.
A demora na travessia contribuiu, por exemplo, para que Lélio Lopes chegasse atrasado ao aeroporto de Rio Branco, sem conseguir retornar a Porto Velho, de onde seguiria a Brasília para cumprir agenda de trabalho e manter reuniões com diretores do Tribunal Superior do Trabalho (TST).
Meia hora depois, um grupo de passageiros decide atravessar em busca de solução para o impasse, acompanhados do índio Júlio Barbosa Kasinawa, que ajudou a negociar com a moradora Julieta a autorização para que outro condutor utilizasse a balsa maior na travessia dos outuros carros e demais passageiros. Uma demora de aproximadamente 45 minutos.
A recompensa
O primeiro sentimento de recompensa veio, no entanto, no discurso do representante do governador do Acre, procurador Armando Figueiredo Melo. Ele afirmou durante a inauguração da sede própria da VT de Feijó, que Jorge Viana reconhecia os esforços da direção do TRT em investir na melhoria das instalações das Varas do Trabalho.
Melo acrescentou que o Tribunal tem-se empenhado em criar os meios para proporcionar a prestação dos serviços aos jurisdicionados, e que o governador Jorge Viana é sabedor de que a presença da Justiça do Trabalho nos municípios contribui em muito para os programas de resgate das ações de cidadania.
A segunda retribuição viria com a participação da maioria dos juízes e servidores nas atividades do projeto “Justiça do Trabalho Vai à Escola”, dia 9 de novembro, na escola Esperança do Povo do Centro dos Trabalhadores da Amazônia, antigo seringal Cachoeira.
Nessa escola, localizada na zona rural e divisa dos municípios de Xapuri e Epitaciolândia (AC), estudam os filhos dos seringueiros, que liderados na época por Chico Mendes, iniciaram a luta contra o desmatamento e criaram as primeiras frentes de “empates”, usando os próprios corpos para impedir o avanço das motosserras nas áreas de derrubadas.
Na comunidade, seis juízes do trabalho de Rondônia e Acre participaram de uma aula inédita de cidadania, com as presenças de dezenas de filhos de seringueiros, dentre eles parentes de Chico Mendes. Os juízes, que realizam um trabalho voluntário de conscientização dos moradores de comunidades de difícil acesso e em escolas da rede pública, foram unânimes em afirmar que vivenciaram uma experiência inédita, pois constataram o alto nível de consciência ecológica existente na comunidade.
Consciência ecológica
A coordenadora do projeto, juíza Maria Cesarineide de Souza Lima, afirmou que ali estava sendo lançada uma semente e pela primeira vez os juízes participavam de uma conversa franca com os filhos dos seringueiros e parentes de Chico Mendes. A expectativa da juíza, é de que os estudantes também se transformem em agentes multiplicadores do processo de conscientização dos direitos dos trabalhadores.
Os juízes se revezaram ora aplaudindo os filhos dos seringueiros cantando músicas com letras de forte apelo ecológico ora participando de brincadeiras e danças com alunos e os adultos, como o juiz Ilson Pequeno, que dançou forró com Cecília Mendes, 80 anos, tia adotiva do ex-líder dos seringueiros.
A escola foi transformada mais tarde em centro de difusão de consciência ecológica na atual Rserva Extrativista Chico Mendes, local escolhido pelo BNDES para financiar projetos de educação ambiental e de produção de artesanato. Nilson Mendes, sobrinho de Chico Mendes, disse que a meta é vender um artesanato de boa qualidade para conquistar o mercado e transformar a atividade numa fonte de renda para os moradores.
O juiz titular da Vara do Trabalho de Epitaciolândia, Fábio Sandim tirou várias dúvidas dos alunos, lembrando a importância do trabalhador ter a carteira profissional assinada, mesmo morando na zona rural, e a juíza-presidente, Elana Cardoso, explicou que o trabalho a restrição ao trabalho infantil não impede o menor de ajudar nas atividades domésticas e em outras que não prejudiquem os estudos.
Participaram também das ações, o juiz Francisco de Paula, que cantou músicas do repertório de Geraldo Azevedo, a juíza da 4ª VT de Rio Branco, Socorro Elizabeth Oliveira Maia, servidores, professores e vários moradores da comunidade, como o sobrinho do ambientalista, Nilson Mendes.
A importância da iniciativa da JT para o processo de consicentização dos filhos dos seringueiros foi ressaltada por Nilson Mendes, ao defender uma atuação mais intensa da instituição na zona rural onde o trabalhador pouco sabe dos seus direitos.
As servidoras Luzia e Nazaré, do Fórum de Rio Branco, mais uma vez se destacaram na apresentação de duas peças teatrais, cujos roteiros alertam para a importância de uma maior conscientização sobre os direitos das empregadas domésticas e o uso de equipamentos de proteção individual, como botas, capacetes, luvas e óculos, na prevenção de acidentes na zona rural e locais insalubres.
Fonte: Abdoral Cardoso
Publicado em 05 de Dezembro de 2006 às 16:50 horas
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